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Diabos à solta em Vinhais

Depois de muitos anos adormecidos, os diabos com os seus fatos vermelhos voltaram a assaltar as ruas de Vinhais, na passada Quarta feira de Cinzas, munidos de cintos de cabedal e chicotes, reavivando assim a ancestral tradição local, numa iniciativa da própria Câmara Municipal.
Dezenas de homens e mulheres, mascarados de diabos e acompanhados de uma figura que personifica a morte, flagelaram todos quantos encontraram na vila, por entre uma grande algazarra e folia. O alvo principal eram as mulheres, especialmente as mais jovens, para as”castigarem dos pecados”, com vergastadas.
O Largo do Arrabalde, no centro da Vila, serviu de ponto de partida para a reanimação da tradição, que esteve moribunda “cerca de 15 anos”, conta um dos diabos, Francisco Ferreira, que não disfarçava o entusiasmo de poder vestir novamente o seu velho fato vermelho, há muito guardado no armário.
Francisco Ferreira conta que antigamente “ a coisa era rija, cascavam-lhe mesmo às raparigas”. Até aos 18 anos fugia dos diabos. A partir daí, eram as outras pessoas que fugiam dele porque começou a trajar o fato diabólico a partir dessa idade. O fato, esse, mandou fazê-lo num alfaiate lá da terra e usou-o durante 30 anos.
Conta ainda que no tempo áureo da tradição, os rapazes arrombavam as portas, partiam janelas e telhas para procurar as raparigas que se escondiam deles. Estas, na tentativa de travar as investidas dos diabos, lançavam água e cinza, ao mesmo tempo que gritavam “Fora com o diabo! Fora com o diabo que não presta para nada!”.

Purificação da alma

Além dos diabos eufóricos à procura de raparigas, a presença emblemática da Morte era a mais temida. Sem nunca emitir um som, era respeitada e seguida pelos fatos vermelhos endiabrados. Um homem todo coberto de preto, com esqueleto pintado de branco, empunhava uma gadanha para “ceifar” as vidas. Esta figura temível, era a única a manter o total anonimato e só ela tinha permissão para entrar na igreja, local onde as raparigas se escondiam dos carrascos.
Tal como antigamente, também este ano as raparigas que foram encontradas foram obrigadas a ajoelhar na pedra do antigo pelourinho para pedirem perdão dos seus pecados. Em sinal de arrependimento e sob o olhar atento da “Morte”, recitaram :
“Padre-nosso, caldo grosso, carne gorda não tem osso, rilha-o tu que eu já não posso. Salve rainha, mata a galinha, põe-na a cozer, dá cá a borracha que quero beber. Creio em Deus, padre todo-poderoso, o filho do rei criou um raposo.”
Roberto Afonso, vereador da Cultura da Câmara Municipal de Vinhais, que também vestiu a pele de demo, explica que a intenção da autarquia ao recriar a tradição é “fazer com que os mais velhos recordem, os mais novos conheçam e que os de fora encontrem mais um motivo para vir a Vinhais”.
O vereador lembra que Quarta-feira de Cinzas marca a entrada na Quaresma, um período de abstinência para os católicos, durante 40 dias, e que os castigos corporais eram uma forma de purificação da alma e expurgação dos pecados. A autarquia quer recuperar uma antiga tradição secular e única no país que estava em risco de se perder.



  Fonte:

  Data: 2006-03-07

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