Comunicação através da pintura
Cláudio Fernandes tem 17 anos e sofre de síndrome de Larson, o que lhe provoca artogripose múltipla nas articulações. Vive na aldeia de Cicouro, concelho de Miranda do Douro, e, apesar das limitações físicas, nasceu com o dom de saber desenhar e pintar. Mais do que através da expressão oral, é através da pintura que Cláudio melhor comunica.
Em Abril, com a colaboração da autarquia local, vai fazer uma exposição com os seus quadros na Casa da Cultura. A mãe, Ester Fernandes, diz que desde pequenino sempre gostou de pintar: “mesmo quando está mais doente gosta de estar sempre com um lápis e um papel por perto”.
Porém a vocação do Cláudio sofreu um novo impulso desde Abril do ano anterior. Nessa altura começou a frequentar aulas de pintura na sede de concelho num atelier por iniciativa dos pais. Um espaço onde começou a desenvolver novas técnicas de desenho e pintura e adquiriu uma redobrada força de vida, porque encontrou naquele lugar um mundo “perfeito”.
Ester Fernandes conta que a professora de pintura aceitou o Cláudio quase que por cortesia: “não fazia ideia da habilidade do meu filho”. Entretanto, hoje, “é a maior admiradora e impulsionadora dele”, comenta orgulhosa.
O jovem pinta e desenha apenas com a mão esquerda e, como não pode levantar o braço a uma altura muito grande, pinta as telas de cima para baixo. Uma forma de trabalho que em nada interfere com o resultado final da obra, que todos dizem ser “excelente”.
A simpatia e a fama de bom pintor do pequeno artista já são conhecidas praticamente em todo o concelho. Alguns dos seus quadros já foram expostos e alvo de licitações, mas nunca vendidos. Estão a ser guardados para a primeira exposição exclusiva dos trabalhos do Cláudio.
O tema principal dos seus quadros é a arquitectura: “adora casas e edifícios bonitos, mas também pinta muitos locais da aldeia”, comenta a mãe.
Atelier
abriu novos horizontes
Todos os sábados, à tarde, vai para o atelier de pintura onde dá asas à imaginação e deixa admirados todos aqueles que o vêem pintar. Apesar das grandes limitações físicas do seu filho, que o deixam completamente dependente de terceiros, Ester Fernandes assegura ser uma mãe muito orgulhosa, “porque o meu filho é um exemplo de vida e coragem e nunca desistiu dos seus sonhos”, comenta emocionada. Garante que desde o início das aulas de pintura, o filho adquiriu um novo brilho nos olhos porque encontrou um novo objectivo na vida: pintar.
Cláudio, sempre muito perspicaz, gere as suas vontades e já sabe onde vai gastar o dinheiro que vai reverter da mostra, caso consiga vender todos os quadros: quer comprar uma nova cadeira eléctrica, porque a actual já está desajustada para as suas necessidades.
Mas os objectivos não se ficam por aqui. Mais tarde, “quando tiver mais dinheiro, quero comprar um Smart adaptado, para poder levar a cadeira para onde quiser”, segreda. A mãe adianta também que, em tom de inocência, o filho lhe disse um dia que, quando fosse rico, queria comprar uma casa em Bragança para viver numa cidade onde podia circular melhor, sem obstáculos. Cláudio só esteve em Bragança uma vez.
Actualmente já pintou cerca de 12 quadros, mas tem mais dois em fase final. Até à exposição, conta pintar mais quatro ou cinco. Ainda não sabe a data certa da mostra, mas, de cada vez que se fala no assunto, os olhos de Cláudio adquirem um brilho diferente e denotam alguma ansiedade pelo momento.
Entretanto vai continuar a frequentar, todos os Sábados, o atelier e mostrar que, apesar da deficiência física, a vontade e a determinação não têm barreiras.
E.P.
Fonte:
Data: 2006-03-07