Negócio da China
As lojas de produtos chineses têm surgido como cogumelos em zonas de comércio nobre das principais cidades do país e não só. A maior parte das vilas também já sente a forte presença deste comércio. O Nordeste Transmontano não é excepção. Um pouco por toda a região os chineses chegaram e instalaram-se. Abrem lojas onde se vende de tudo um pouco, desde baterias para telemóveis e máquinas de calcular até roupa e calçado, passando por relógios, canetas, brinquedos, perfumes e quase tudo o que na imaginação couber.
Depois de Bragança, onde estão contabilizadas sete lojas do género e três restaurantes de comida chinesa, todas as sedes de concelho do distrito contam já com a presença destas lojas comerciais onde reina a confusão de artigos, quase tudo a preços baixos. Na maioria, os empregados são chineses e mal falam português. Mas a linguagem dos negócios é universal, e essa, dominam-na eles na perfeição. Pouco a pouco o comércio chinês foi fazendo parte das compras dos portugueses.
Mogadouro também já se rendeu “aos preços baixos” e é precisamente nesta vila que está identificada a maior loja do género em todo o distrito. Tem 400 metros quadrados, e, ali, pode-se encontrar todo o tipo de objectos que a imaginação possa albergar. É um dos maiores espaços comerciais daquela vila, e o maior do género no distrito.
Preços baixos
Apesar da dimensão e da diversidade de produtos, a proprietária Wei E Li queixa-se do negócio. Está em Portugal há 14 anos e mudou-se para Mogadouro há cerca de seis. Veio do seu país de origem com o marido para a cidade do Porto, onde começou por ser vendedora ambulante. Um dia veio até Mogadouro e resolveu ficar “porque na cidade grande há muita confusão e já há muito comércio”, comenta num português rudimentar. A língua parece não ser um entrave, pois, passados estes anos, já tem, naquela pequena vila, duas lojas e um restaurante de comida chinesa que só abre à noite, “porque aos almoços não há clientes”.
Ela e o marido trabalham praticamente 12 a 14 horas por dia, porque, depois do fecho das lojas, ainda vão trabalhar para o restaurante. Muito trabalho “para educar e dar de comer aos filhos”.
A família conta já com quatro filhos, que estudaram desde sempre em Portugal e que, tal como os pais, já não pensam voltar para a China. Gostam de Mogadouro e pretendem ficar, desde que o negócio continue a dar. Na vila existem ainda mais duas lojas de artigos chineses, que se instalaram depois da família de Wei E Li ter chegado à vila.
A empresária diz que o sucesso de vendas dos seus produtos se deve aos preços baixos, uma situação que a crise económica veio favorecer, “porque as pessoas querem gastar cada vez menos dinheiro”, entende. Talvez seja esta a chave do sucesso deste comércio, mas a mentalidade e o comportamento a que os chineses estão habituados também ajudam a explicar o êxito no mundo do comércio. Vivem para o trabalho em vez de trabalharem para viver: estão abertos sete dias por semana, com um horário capaz de esmagar o comércio tradicional português.
Apesar da existência das lojas dos 300, Wei E Li diz que a diferença das chinesas é que estas têm mais variedade, o espaço é muito maior e estão situadas em zonas onde passa muita gente. A gerente diz que são os produtos de limpeza e vestuário que vendem melhor, mas garante que é nas férias do Verão e no Natal que se faz melhor negócio. No resto do ano “a coisa está mal, não há dinheiro”.
Cultura chinesa
Ermezinda Ferreira, habitante local, admite que costuma comprar artigos nos chineses porque “têm muitas coisas em conta e há sempre alguma coisa útil que se encontra barata e que noutros sítios é mais caro”. Em relação à qualidade diz que não se pode comparar, “mas nem tudo é mau”.
Quem não gosta da presença destes comerciantes é a Associação Comercial e Industrial de Mogadouro. O seu representante, Horácio Sá, diz que as lojas chinesas têm um impacto negativo no comércio tradicional local “porque, se as pessoas fazem compram nos chineses, já não gastam noutras casas”, explica. Entende que é a crise que se vive que favorece o aparecimento deste comércio, mas chama a atenção para a qualidade dos produtos. Compreende que se trata de uma concorrência desleal devido aos incentivos fiscais da China, mas deixa um alerta sobre a importância da existência de um organismo regulador deste tipo de comércio e importação de produtos.
Wei E Li diz que já se sente integrada na comunidade local, mas os hábitos lá em casa continuam a ser os mesmos que receberam na infância, ou seja, comida e música chinesa. Não tem saudades da sua terra natal, “porque é muito pobre”, mas tem saudades da família que é muito grande: “lá somos quase todos primos”, comenta divertida.
Quer se goste ou não, as lojas de produtos chineses vieram para ficar e as vilas e cidades do Nordeste Transmontano já sucumbiram às bagatelas deste comércio.
E.P.
Fonte:
Data: 2006-02-21