Na semana passada realizaram-se as eleições para o Instituto Politécnico de Bragança, o que nos leva a levantar algumas questões a respeito desta instituição.
Em primeiro lugar, convém salientar que o IPB veio na melhor altura para o nosso distrito, porque foi criado imediatamente depois do encerramento do quartel militar, o chamado BC3. Numa região crescentemente desertificada, a saída de Bragança de uma unidade militar que, entre oficiais, sargentos e praças, movimentava algumas centenas de pessoas, não podia deixar de ter algum impacto negativo na economia local. O IPB veio logo de seguida, colmatando assim, em parte, os efeitos gravosos da extinção do BC3.
Neste momento, o IPB é absolutamente vital para a economia de Bragança, já que emprega largas centenas de professores e funcionários, para lá dos milhares de alunos que ali se formam, gerando milhares de contos de receitas na restauração, na habitação, nas papelarias, nas gasolineiras, enfim, um pouco por todo o lado. Por isso, se o IPB acabasse, agora, não seria o deserto definitivo, mas para aí caminhávamos.
No entanto, será que a sobrevivência do IPB está em causa? Infelizmente, temos de dizer que pode estar. Há muito tempo que vimos alertando os responsáveis para este risco sem que as nossas observações tenham tido qualquer acolhimento da parte desses responsáveis, preocupados que sempre andaram com a “guerra” inútil e egocêntrica da transformação do IPB em Universidade. Só que hoje em dia já ninguém consegue iludir o problema. A sobrevivência do IPB está em causa, como está em causa a sobrevivência de muitos Politécnicos por esse país fora.
E está em causa, porquê? Alguns dos professores e dos responsáveis dos Politécnicos começam a querer responsabilizar o actual ministro da Ciência e do Ensino Superior pela crise já instalada, ainda que apenas envergonhadamente, em quase todos os Politécnicos do país. No entanto, essa desculpa não passa de um “sacudir a água do capote”, sem qualquer fundamento objectivo, até porque as origens da crise são muito anteriores à presença deste ministro no cargo.
A sobrevivência dos Politécnicos está em causa porque os seus responsáveis, em vez de definirem caminhos próprios, com cursos superiores de índole tecnológica não ministrados pelas Universidades, limitaram-se a repetir os cursos destas, dando-lhes apenas uma inferior duração. Como dizia há dias um antigo Director Geral do Ensino Superior, como é que se compreende que numa faixa do interior, que vai da Guarda a Portalegre, haja os Politécnicos destas 2 cidades, acrescidos do Politécnico de Castelo Branco e da Universidade da Covilhã, oferecendo todas estas instituições os mesmos cursos?
Acontece que, enquanto houve mais alunos que vagas no ensino superior público, o problema foi sendo escamoteado. Agora, porém, em que o número de alunos é progressivamente inferior ao número de vagas, os alunos escolhem as Universidades – as melhores Universidades do país – e os Politécnicos começam a ficar às moscas. Aliás, até as Universidades menos qualificadas – as do interior -, que não apenas os Politécnicos, sentem graves problemas de sobrevivência.
Por isso, o problema dos Politécnicos já não está em saber como transformá-los em Universidades, mas como garantir a sua sobrevivência. Esta é, todavia, uma questão que ficará para uma análise posterior.
No entanto, desde já uma coisa é certa: se o problema não for enfrentado de imediato, com medidas que passam por um estudo profundo da evolução demográfica das escolas, desde o básico ao superior, e por uma racional articulação de medidas a nível central e local, dentro de alguns anos limitar-nos-emos a espreitar às escondidas para o funeral de todos os Politécnicos do país, cujo “féretro” descerá à campa sem “acompanhamento religioso” e completamente abandonado, mesmo pelos “sacerdotes” e “sacristãos” que sempre viveram à sua custa.
Fonte:
Data: 2006-02-21